segunda-feira, 1 de março de 2010

REAPI e Furpa denunciam manobras do governo sobre mudanças no Código Florestal

Deputados federais e inclusive o governador do PI receberam dinheiro para campanha de empresas que do agronegócio que querem mudar o código florestal.

A Rede Ambiental do Piauí – REAPI e a Fundação Rio Parnaíba – FURPA repudiam a tentativa de manobra para a aprovação das mudanças no Código Florestal Brasileiro, durante Audiência Pública realizada na Assembléia Legislativa, nesta segunda-feira (01), organizada pela bancada ruralista da Câmara dos Deputados. Os ambientalistas afirmam que audiência teve a finalidade em contribuir com o novo código que visa proteger o agronegócio, assim diminuindo as áreas de floresta no país e também prejudicando o homem do campo.

O debate foi todo direcionado para que o resultado fosse a favor da bancada ruralista que defende unicamente o agronegócio. Tanto é que se fizeram presentes em grande número os empresários do ramo da soja, eucalipto, e especialmente, das carvorarias, com destaque para a empresa JB Carbon, que apesar das inúmeras irregularidades ainda apareceu na audiência, e foi citada pelo relator Moacir Micheletto (PMDB-PR).

O ambientalista Francisco Soares, conselheiro do CONAMA pela FURPA, esteve na audiência e falou na tribuna que é “um absurdo ver esses deputados defenderem apenas os interesses dos empresários. E que essas alterações são um desmonte a Legislação Ambiental, e não contemplam a floresta e o homem do campo”.

Ainda colocou que não se deve reduzir as Áreas Preservação Permanente- APP, para compensar a Reserva Legal, ainda acrescentou na importância de se manter grandes preservadas para garantir a biodiversidade da região e sobretudo viabilizar os corredores ecológicos.

Soares ainda rebateu as afirmações do secretário do meio ambiente do Piauí, Dalton Macambira, que representava o governador, e o deputado Aldo Rebelo (PC do B – SP), relator da comissão da reforma do código florestal, que declararam a imprensa local que no Piauí não tinha nenhuma espécie da mata atlântica, o ambientalista que também é biólogo, ratificou que a Lei da N. 11.428/06 que reconhece o bioma da mata atlântica no Piauí, abrangendo 11 formações florestais, das quais duas estão presentes no estado, a floresta estacional decidual e floresta estacional semidecidual.

Destacou ainda que a forte de presença ipês e aroeiras no estado são características marcantes da vegetação da mata atlântica, com destaque para os municípios de Teresina e Curimatá, são conhecidas como cidades dos ipês.

Ainda durante a audiência o ambientalista Dionísio Neto, coordenador da REAPI, disse em seu discurso na Assembléia que aquela audiência é um absurdo, pois ali se encontravam políticos comprometidos e financiados pelas grandes empresas do agronegócio e da mineração, a exemplo do próprio deputado, Aldo Rebelo e Osmar Junior ambos do PC do B.

“Esses deputados se utilizam de um discurso ambiental falso para enganar a população, vale destacar que os deputados federais Aldo Rebelo e Osmar Junior, os quais foram financiados por empresas de papel celulose, os fatos podem ser conferidos na internet no site do TSE. E se oficializarem essas mudanças Código Florestal eles estarão legalizando a destruição”, disse Dionísio.

Ainda na tribuna da Assembléia Legislativa, Dionísio, denunciou o esquema do financiamento de políticos em troca de favores políticos para beneficiar as carvoarias, sobrou até para o governador do Piauí.

“É nítido o envolvimento do deputado Aldo Rebelo, outros deputados do Estado e até do próprio governador Wellington Dias, com o que denomino de máfia do carvão, pois quem financiou a última campanha eleitoral, segundo o TSE, tanto de Aldo, com R$100.000, como a de Wellington, com R$ 150.000 foi a Companhia Siderúrgica Nacional – CSN que precisa do carvão de nossas florestas.”, completou.

Assessoria REAPI

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Serra Vermelha ameaçada pelos interesses políticos

No sul do Piauí está localizada a Serra Vermelha, a qual possui uma importante floresta brasileira, que é considerada um ecótono, com presença de três biomas: caatinga, mata altântica e cerrado. Estudos do Ministério do Meio Ambiente – MMA apontam que a região é uma área prioritária para a preservação, e existia na época da ex-ministra, Marina Silva, o interesse por parte do MMA de se criar mais uma Unidade de Conservação no Brasil, mas o governador do Piauí, Wellington Dias, vetou a criação do Parque Nacional, juntamente com o ICMbio favorecendo novamente as inúmeras carvoarias.

A reunião para decidir o futuro da Serra Vermelha foi realizada a portas fechadas na sede do governo do Piauí, nesta última segunda-feira (08), com a participação do governador, IBAMA, e do presidente do ICMbio, Rômulo Melo. Na pauta estavam a Serra Vermelha, revisão do mapa da mata atlântica no Piauí e da criação do projeto de conservação do peixe-boi no litoral piauiense.

O governador está fazendo manobras para evitar a criação do Parque, sendo que na primeira delas ele deseja retirar o Piauí da Mata Atlântica, e a outra é fazer com que o presidente Lula assine um decreto, no próximo dia 05 de março, que amplia o Parque Nacional Serra das Confusões em 193 mil hectares, com isso deixará de fora mais de 300 mil hectares da Serra Vermelha, beneficiando assim, empresários que devastam terras públicas para a produção de carvão destinados as siderúrgicas e estimulando o trabalho escravo.

A região continua sendo desmatada, pois a fiscalização é insuficiente e existe má vontade dos órgãos competentes em proteger a biodiversidade da região. Além da grande repercussão negativa na mídia nacional e internacional o governo insiste em entregar a área para grandes empresas destruidoras, como é o caso da JB Carbon, cujo projeto Energia Verde foi paralisado pela Justiça Federal. O fato comoveu a sociedade brasileira, mas projetos parecidos podem voltar ameaçando a maior parte da floresta.

O movimento ambiental no país tem se mobilizado e apoiado a criação do Parque Nacional com uma campanha em defesa da Serra Vermelha, organizada pela Rede Ambiental do Piauí e importantes ONGs como a Fundação Rio Parnaíba. Mas o movimento ambiental teme pelo pior, pois o governador do Piauí foi financiado na última eleição pelo ramo da siderurgia e está comprometido com os interesses destas empresas. O fato pode ser comprovado nas contas de campanha política no site do TSE, onde o governador do PI recebeu 150 mil reais da Companhia Siderúrgica Nacional - CSN. A criação da UC fere os interesses de grandes empresas poluidoras ligadas ao ramo.

A região abriga diversas espécies ameaçadas de extinção a exemplo do primata bugio, da anhuma e da onça pintada, e com a não criação do Parque a floresta pode desaparecer ainda mais depressa.

Por Dionísio Neto
Rede Ambiental do Piauí – REAPI

O EMBALO DA SUZANO : VENENO NAS CHAPADAS DE ANAPURUS, BAIXO PARNAIBA MARANHENSE

O EMBALO DA SUZANO : VENENO NAS CHAPADAS DE ANAPURUS, BAIXO PARNAIBA MARANHENSE

Dado o atual senso comum-bizarro que predomina no e domina o processo social e econômico no Brasil e, por emenda parlamentar, no Maranhão também, quem quer lucrar com seus projetos deve ir no embalo, seja embalado pelo canto das sereias ou dos cisnes que hipnotizam ou suavizam os ouvintes ou os dançantes, ou seja embalado na nova linha de papéis da Suzano Papel e Celulose.

"Os embalos de sábado a noite continuam" nas esferas locais, estaduais, regionais e nacionais e por essa razão a Suzano se cobre de razão ao cobrar do governo do Maranhão que as suas licenças de desmatamento na região Tocantina e na região dos Cocais disparem o mais rápido possível, senão ela vai disparar rapidamente para o estado Tocantins com sua fábrica de celulose, onde se obtém com mais facilidade as licenças ambientais.

As áreas, que a Suzano pretende desmatar ou já desmata no Baixo Parnaiba maranhense, cerca de 40 mil hectares em Urbano Santos, Anapurus e Santa Quitéria, foram sacramentadas no mês de maio de 2009 pela então secretária de meio ambiente Telma Travincas numa só canetada. Só mesmo a Suzano, a secretaria de meio ambiente do Maranhão e o Fórum em Defesa do Baixo Parnaiba sabem que essas licenças existem.

A sociedade civil, em sua maior parte, desconhece quem assinou e quais áreas serão desmatadas. Esse foi o teor da conversa em Currais, município de Mata Roma, e Campestre, município de Anapurus. O senhor Euclides, que toma conta de uma área do senhor Garreto, relatou que nada sabia de desmatamento da Suzano naquela parte da Chapada. O Maciel, seu neto, fora informado por acaso que tratores estavam parados na comunidade de Veredas prontos para o abate do Cerrado. A Suzano pouco informa. O senhor Valcimar informou que funcionários da Suzano deixaram pacotes de veneno na Chapada e quando chove esses pacotes explodem soltando veneno para todo lado. As pessoas que coletam bacuri e pequi na Chapada correm riscos desconhecidos, como frisou um dos netos do senhor Euclides.

A Suzano quer plantar 60 mil hectares de eucalipto na região tocantina e região sudoeste do Maranhão. A empresa bateu esse número faz tempo e devia estar preparada para as costumeiras contrariedades do licenciamento ambiental. Contudo, ela vai no embalo como acontece no Piaui onde o governo conseguiu que o Instituto Chico Mendes revisse as áreas de Mata Atlântica no estado.

Mayron Régis, assessor Fórum Carajás

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Parque Nacional da Serra Vermelha é vetado pelo governador do PI e ICMBIO

Governador do Piauí e o Ministro do Meio Ambiente através do ICMBIO, vetaram a criação do Parque Nacional da Serra Vermelha que estava previsto a sua efetivação desde a época da ex-ministra Marina Silva. Como é ano eleitoral e o governador já foi financiado na última eleição de 2006 pelo ramo da siderurgia, segundo o TSE, e ele está agora liquidando a conta da campanha, pois mais de 300 mil hectares de mata atlântica, caatinga e cerrado poderão se transformar novamente em carvão vegetal. Um verdadeiro GOLPE contra a biodiversidade do nordeste. O complô foi todo montado nesta segunda-feira dia 08 de fevereiro de 2010, no Palácio de Karnak, sede do governo, com grande presença da mídia. Mas os ambientalistas do piauí estiveram lá, mesmo sem serem convidados e censurados pelo governo realizaram protestos.



Vejam a repercussão da imprensa local.





sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

O balão mágico do eucalipto no povo piauiense


Há duas maneiras rápidas do homem devastar a vida no planeta. A primeira são as bombas atômicas, e a segunda é desmatamento que é mais lento e doloroso. São tristes as cenas de norte a sul no Piauí, e é um absurdo ver a riquezas de nossas florestas serem destruídas para enriquecer ainda mais grandes os empresários, e também políticos corruptos. E nesse semana no Piauí nos deparamos mais uma vez com uma grande empresa que anuncia mais ar para a economia, não sei se é para o Piauí, mas creio que essa Oxygen (Oxigênio) venha para dar um verdadeiro balão nos piauienses com suas monoculturas de eucalipto, e roubar aquilo que a natureza levou milhares de anos pra se formar. Já não é demais ter uma Suzano na região para arrebentar com nossa a biodiversidade?

Eles anunciam e comemoram que a produtividade de eucalipto no Piauí é a segunda maior do Brasil e prometem investimentos milionários, mas esquecem que deveríamos comemorar mesmo em 2010 é o ano internacional da biodiversidade, a idéia foi uma iniciativa da Assembléia Geral das Nações Unidas, durante a COP-15, que pretendeu aumentar a conscientização da população para a importância da biodiversidade.

O Governo Federal e Estadual abrem as pernas para empreendimentos que não contribuem para a sustentabilidade, com ênfase para as monoculturas, especialmente a do eucalipto.

É inquestionável a importância da biodiversidade de uma floresta nativa comparada com simplicidade biológica da monocultura. O mais interessante é a forma irônica de como usam a palavra “reflorestamento” para a monocultura de eucalipto, a qual substitui as florestas nativas. Que graça tem olhar para milhares de árvores, uma igual a outra, realmente é o “deserto verde” como dizem por aí.

Situações parecidas não deram certo em outros estados, como é caso de São Paulo, com destaque para a pequena cidade de São Luiz do Paraitinga que foi arrasada recentemente pelas chuvas. O Tribunal de Justiça de SP suspendeu as atividades da Suzano Papel Celulose por detectar que o “plantio de eucalipto causa danos graves ao ambiente e o êxodo rural na área”. O mais interessante é que agora apareceu um empresário, Michael Biggs, filho de um do maiores ladrões do mundo, e ex-integrante do famoso Balão Mágico; anunciando um investimento vultuso na monocultura de eucalipto no norte do Piauí.

A sociedade inteira está atenta a questão das mudanças climáticas, e todos sabem que manter a floresta nativa em pé é uma das melhores saídas para tentar reduzir o aumento clima. O atual modelo está falido e desgastando nossas riquezas. É imprescindível políticas públicas urgentes para proteger o meio ambiente, e a sociedade precisa ainda de políticos comprometidos o suficiente com desenvolvimento sustentável para amenizar os efeitos da crise climática. Um estudo recente da Universidade de Minas Gerais, sobre o nordeste, aponta que o Piauí sofrerá um “encolhimento de 70,1%” das terras cultiváveis no estado por conta das mudanças do clima e mau uso do solo. O documento mostra também que teremos áreas inabitáveis.

A irresponsabilidade está diante dos nossos olhos e é ridículo ver a atuação do governo em aceitar tamanhos empreendimentos insustentáveis. E os piauienses vão levar um balão grande nessa história, quando perceberem que suas riquezas sumirão num passe de mágica.

Dionísio Neto
Jornalista Ambiental, estudante de Gestão Ambiental e coordenador de mobilização social da Rede Ambiental do Piauí - REAPI

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Avatar fascina pelos efeitos, mas também pela “culpa ecológica”

É preciso ver pra crer. Como não levo a sério as dicas dos outros sem conferir, fui encarar o filme Avatar, do cineasta James Cameron, neste final de semana no Teresina Shopping. Em meio a um bombardeio publicitário sobre a ousadia do filme, é necessário ser um “tomeista” de plantão para não sair da sala de cinema arrependido por assistir aos filmes-pipocas lançados por Hollywood. Mas, Avatar, o longa-metragem mais caro do cinema, não é um filme de deixar o queixo caído, mas sem dúvida é fenomenal.


O longa me tocou não por suas técnicas revolucionárias, que criou personagens virtuais em três dimensões, mas pela sua forte mensagem de como a humanidade está tratando o planeta.




Em Avatar não há um tom didático ou engajado, já que as imagens valem por mil palavras. Uma das cenas que mais me chocou foi à derrubada da árvore sagrada e o choro coletivo de uma nação para aquela destruição. Era como se aquela árvore fosse parte deles, como se fosse um ser como eles.


A novidade em Avatar é a sua floresta bioflurescente com plantas que emitem luz multicoloridas, lugar inabitado para os humanos e que tem seres parecidos com dinossauros, predadores, e criaturas assustadoras. O magnetismo da selva são também os belos humanóides azulados e esguios que se conectam com animais e plantas.


A história de "Avatar" é ambientada no século 22 (ano de 2154) e mostra um grupo de humanos de olho em um valioso mineral encontrado no planeta Pandora, habitado por uma raça humanóide nativa chamada Na'vi. O longa mostra um ex-soldado tetraplégico e amargo, que perdeu os movimentos das pernas em combate, que se alista para a exploração do planeta Pandora.


Assistindo ao filme, lembrei de uma entrevista de James Cameron e ele dizia sobre Avatar: “Quero criar um sonho que possa ser sonhado coletivamente em uma sala de cinema”. A trama é simples e previsível, em alguns momentos meloso, mas planta uma semente, já que estamos brigando por pré-sal, enfrentando apagões com crise energética, mortes por rompimento de barragem, o filme pode despertar para o fenômeno da degradação ambiental e as calamidades naturais.




O filme é pivô de uma mudança em Hollywood que promete revolucionar o mercado cinematográfico com sua superprodução de mais de R$ 230 milhões, o mais caro da história do cinema.




Guerra ao terror

Mas, Cameron é persistente e impressiona pela sua metáfora sobre o futuro do planeta, as guerras, as queimadas, os desmatamentos, a culpa ecológica. O fraco contra os fortes. Resistência. Não é um filme “ecochatices”. Ele dá um tapa com luva de película no desencanto ao imperialismo armado, simula a guerra ao terror e se as imagens da invasão ao planeta Pandora lhe remeterem as ocupações no Iraque e Afeganistão, não se assuste, pois são meras semelhanças.

Veja aqui a trilha sonora de Avatar


A cantora Leona Lewis com "I see you" (canção tema do filme)

Vá ao cinema e se prepare para ver cenas extasiantes, mas não deixe de perceber que somos fortes, temos armas, tecnologia, mas a força da natureza é implacável...Avatar, sem sobra de dúvida, é um alerta para o que está acontecendo conosco, na Terra. E não pense que a saga é coisa de filme-catrástrofe, futurista, ou de Nostradamus. É real...

Yala Sena

domingo, 13 de dezembro de 2009

Quatro frases que fazem o nariz do Pinóquio crescer o texto circulou creditado a Eduardo Galeano

1 – Somos todos culpados pela ruína do planeta.

A saúde do mundo está feito um caco. ‘Somos todos responsáveis’, clamam as vozes do alarme universal, e a generalização absolve: se somos todos responsáveis, ninguém é. Como coelhos, reproduzem-se os novos tecnocratas do meio ambiente. É a maior taxa de natalidade do mundo: os experts geram experts e mais experts que se ocupam de envolver o tema com o papel celofane da ambiguidade. Eles fabricam a brumosa linguagem das exortações ao ‘sacrifício de todos’ nas declarações dos governos e nos solenes acordos internacionais que ninguém cumpre. Estas cataratas de palavras – inundação que ameaça se converter em uma catástrofe ecológica comparável ao buraco na camada de ozônio – não se desencadeiam gratuitamente. A linguagem oficial asfixia a realidade para outorgar impunidade à sociedade de consumo, que é imposta como modelo em nome do desenvolvimento, e às grandes empresas que tiram proveito dele. Mas, as estatísticas confessam. Os dados ocultos sob o palavreado revelam que 20 por cento da humanidade cometem 80 por cento das agressões contra a natureza, crime que os assassinos chamam de suicídio, e é a humanidade inteira que paga as consequências da degradação da terra, da intoxicação do ar, do envenenamento da água, do enlouquecimento do clima e da dilapidação dos recursos naturais não-renováveis. A senhora Harlem Bruntland, que encabeça o governo da Noruega, comprovou recentemente que, se os 7 bilhões de habitantes do planeta consumissem o mesmo que os países desenvolvidos do Ocidente, “faltariam 10 planetas como o nosso para satisfazerem todas as suas necessidades.” Uma experiência impossível.

Mas, os governantes dos países do Sul que prometem o ingresso no Primeiro Mundo, mágico passaporte que nos fará, a todos, ricos e felizes, não deveriam ser só processados por calote. Não estão só pegando em nosso pé, não: esses governantes estão, além disso, cometendo o delito de apologia do crime. Porque este sistema de vida que se oferece como paraíso, fundado na exploração do próximo e na aniquilação da natureza, é o que está fazendo adoecer nosso corpo, está envenenando nossa alma e está deixando-nos sem mundo.

2 – É verde aquilo que se pinta de verde.

Agora, os gigantes da indústria química fazem sua publicidade na cor verde, e o Banco Mundial lava sua imagem, repetindo a palavra ecologia em cada página de seus informes e tingindo de verde seus empréstimos. “Nas condições de nossos empréstimos há normas ambientais estritas”, esclarece o presidente da suprema instituição bancária do mundo. Somos todos ecologistas, até que alguma medida concreta limite a liberdade de contaminação.

Quando se aprovou, no Parlamento do Uruguai, uma tímida lei de defesa do meio-ambiente, as empresas que lançam veneno no ar e poluem as águas sacaram, subitamente, da recém-comprada máscara verde e gritaram sua verdade em termos que poderiam ser resumidos assim: “os defensores da natureza são advogados da pobreza, dedicados a sabotarem o desenvolvimento econômico e a espantarem o investimento estrangeiro.” O Banco Mundial, ao contrário, é o principal promotor da riqueza, do desenvolvimento e do investimento estrangeiro. Talvez, por reunir tantas virtudes, o Banco manipulará, junto à ONU, o recém-criado Fundo para o Meio-Ambiente Mundial. Este imposto à má consciência disporá de pouco dinheiro, 100 vezes menos do que haviam pedido os ecologistas, para financiar projetos que não destruam a natureza. Intenção inatacável, conclusão inevitável: se esses projetos requerem um fundo especial, o Banco Mundial está admitindo, de fato, que todos os seus demais projetos fazem um fraco favor ao meio-ambiente. O Banco se chama Mundial, da mesma forma que o Fundo Monetário se chama Internacional, mas estes irmãos gêmeos vivem, cobram e decidem em Washington. Quem paga, manda, e a numerosa tecnocracia jamais cospe no prato em que come. Sendo, como é, o principal credor do chamado Terceiro Mundo, o Banco Mundial governa nossos escravizados países que, a título de serviço da dívida, pagam a seus credores externos 250 mil dólares por minuto, e lhes impõe sua política econômica, em função do dinheiro que concede ou promete. A divinização do mercado, que compra cada vez menos e paga cada vez pior, permite abarrotar de mágicas bugigangas as grandes cidades do sul do mundo, drogadas pela religião do consumo, enquanto os campos se esgotam, poluem-se as águas que os alimentam, e uma crosta seca cobre os desertos que antes foram bosques.

3 – Entre o capital e o trabalho, a ecologia é neutra.

Poder-se-á dizer qualquer coisa de Al Capone, mas ele era um cavalheiro: o bondoso Al sempre enviava flores aos velórios de suas vítimas... As empresas gigantes da indústria química, petroleira e automobilística pagaram boa parte dos gastos da Eco 92: a conferência internacional que se ocupou, no Rio de Janeiro, da agonia do planeta. E essa conferência, chamada de Reunião de Cúpula da Terra, não condenou as transnacionais que produzem contaminação e vivem dela, e nem sequer pronunciou uma palavra contra a ilimitada liberdade de comércio que torna possível a venda de veneno.

No grande baile-de-máscaras do fim do milênio, até a indústria química se veste de verde. A angústia ecológica perturba o sono dos maiores laboratórios do mundo que, para ajudarem a natureza, estão inventando novos cultivos biotecnológicos. Mas, esses desvelos científicos não se propõem encontrar plantas mais resistentes às pragas sem ajuda química, mas sim buscam novas plantas capazes de resistir aos praguicidas e herbicidas que esses mesmos laboratórios produzem. Das 10 maiores empresas do mundo produtoras de sementes, seis fabricam pesticidas (Sandoz-Ciba-Geigy, Dekalb, Pfizer, Upjohn, Shell, ICI). A indústria química não tem tendências masoquistas.

A recuperação do planeta ou daquilo que nos sobre dele implica na denúncia da impunidade do dinheiro e da liberdade humana. A ecologia neutra, que mais se parece com a jardinagem, torna-se cúmplice da injustiça de um mundo, onde a comida sadia, a água limpa, o ar puro e o silêncio não são direitos de todos, mas sim privilégios dos poucos que podem pagar por eles. Chico Mendes, trabalhador da borracha, tombou assassinado em fins de 1988, na Amazônia brasileira, por acreditar no que acreditava: que a militância ecológica não pode divorciar-se da luta social. Chico acreditava que a floresta amazônica não será salva enquanto não se fizer uma reforma agrária no Brasil. Cinco anos depois do crime, os bispos brasileiros denunciaram que mais de 100 trabalhadores rurais morrem assassinados, a cada ano, na luta pela terra, e calcularam que quatro milhões de camponeses sem trabalho vão às cidades deixando as plantações do interior. Adaptando as cifras de cada país, a declaração dos bispos retrata toda a América Latina. As grandes cidades latino-americanas, inchadas até arrebentarem pela incessante invasão de exilados do campo, são uma catástrofe ecológica: uma catástrofe que não se pode entender nem alterar dentro dos limites da ecologia, surda ante o clamor social e cega ante o compromisso político.

4 – A natureza está fora de nós.

Em seus 10 mandamentos, Deus esqueceu-se de mencionar a natureza. Entre as órdens que nos enviou do Monte Sinai, o Senhor poderia ter acrescentado, por exemplo: “Honrarás a natureza, da qual tu és parte.” Mas, isso não lhe ocorreu. Há cinco séculos, quando a América foi aprisionada pelo mercado mundial, a civilização invasora confundiu ecologia com idolatria. A comunhão com a natureza era pecado. E merecia castigo. Segundo as crônicas da Conquista, os índios nômades que usavam cascas para se vestirem jamais esfolavam o tronco inteiro, para não aniquilarem a árvore, e os índios sedentários plantavam cultivos diversos e com períodos de descanso, para não cansarem a terra. A civilização, que vinha impor os devastadores monocultivos de exportação, não podia entender as culturas integradas à natureza, e as confundiu com a vocação demoníaca ou com a ignorância. Para a civilização que diz ser ocidental e cristã, a natureza era uma besta feroz que tinha que ser domada e castigada para que funcionasse como uma máquina, posta a nosso serviço desde sempre e para sempre. A natureza, que era eterna, nos devia escravidão. Muito recentemente, inteiramo-nos de que a natureza se cansa, como nós, seus filhos, e sabemos que, tal como nós, pode morrer assassinada. Já não se fala de submeter a natureza. Agora, até os seus verdugos dizem que é necessário protegê-la. Mas, num ou noutro caso, natureza submetida e natureza protegida, ela está fora de nós. A civilização, que confunde os relógios com o tempo, o crescimento com o desenvolvimento, e o grandalhão com a grandeza, também confunde a natureza com a paisagem, enquanto o mundo, labirinto sem centro, dedica-se a romper seu próprio céu.